Sunday, November 05, 2006

Centelha de Vida


Minha respiração congelou quando abri os olhos e notei que estava de volta àquele velho casarão, senti meus suspiros congelando no tempo, minha cabeça rodava, e com a visão turva tentei, aos poucos, me levantar, mas minhas forças me abandonaram, não conseguia me mover, a cama era fria, minha visão oscilava entre um branco brilhante e aquele teto velho, mofado e pálido, tudo era pálido. Começava a sentir minhas mãos e pés formigarem, sentia meu corpo se entregando, mesmo assim tentava me livrar, tentativas inúteis e, quanto mais tentava, mais o quarto diminuía de tamanho, as paredes moviam-se e tudo tremia em gritos desesperados, insultos “Mentirosa!”, “Falsa!” eles diziam repetidamente, via vultos pela janela, olhos tão profundos que envelheciam as paredes por onde passavam, e exalavam a podridão, rodeavam-me como lobos em caça.

Tentava gritar, minha voz não saia, nem mesmo minha voz, quanto mais eu tentava mais as paredes me respondiam com insultos, mais os olhos me olhavam e se excitavam, arranhavam ao vidro, a porta, o teto, tentava incessantemente me livrar, todo meu corpo doía, sentia gosto de sangue, sentia a podridão saindo de mim, os gritos não saíam, eu queria ajuda, ninguém ouvia. Eu ouvia, ouvia passos, ouvia um sussurrar frio, ele me dizia “sempre que um amor nasce, um tem que morrer”.

Os vidros se quebraram, os lobos entraram e começaram a me arranhar, sentia suas garras penetrando na carne, nos tornozelos, nos joelhos, nas coxas, sentia seus dentes, via somente seus olhos. “Você nasceu para mim! Eu vou levá-la” dizia a voz. Debatia-me com forças que já não eram minhas, estava desistindo quando um ponto branco apareceu no teto, o gosto de sangue passou, lagrimas escorriam por minha face, o ar gelado se aqueceu, a luz dizia-me coisas que não entendia, mas fizeram meus gritos ecoaram com tanta intensidade que as paredes recuaram, os insultos cessaram, os lobos correram saltando aos montes pela janela e, gradativamente, o branco voltou. Dormi em paz.

O chão está gelado, meus pés doem, meu corpo treme, está frio, no ar, paira um silêncio tão intenso que ouço meu caminhar cauteloso, esta escuro lá fora, não se vê nada janela a fora, nem mesmo aquelas do teto, todas estão escuras, submersas no invisível, no inaudível, no inacreditável.

Caminho até a grande porta de madeira entalhada. Estou de volta ao casarão. No batente da porta está escrito: “Seus anjos não podem ajudá-la”. Cautelosamente viro o trinco, sinto uma grande esperança do outro lado da porta. O ranger da madeira irrompe o silêncio. Meu coração palpita, a respiração acelera, o desespero aumenta, a esperança se esvai como areia ao vento. Sentada perto da janela, vejo uma mulher, que me olha com ódio e diz me coisas que não entendo enquanto, lentamente, costura com linha cor de sangue a boca de minha boneca favorita. A boneca esta suja de ódio, de ódio e de sangue. Engasgo com meu próprio grito. Quero que ela pare, mas a mulher olha-me odiosamente e fura-se com a agulha. O ódio irrompe seu olhar, ela grita tão forte que meu coração aperta, arremessa-me a boneca que entra dentro de mim. A mulher começa ficar pálida, eu corro para acudi-la, mas ela se esfarela ao meu tocar. Sangue escorre em minha face, em meu corpo.

Olho janela afora, está tudo destruindo, existem lobos, os lobos me olham. “Mentirosa! Falsa” as vozes gritam. As paredes tremem e começam a me espremer, sinto-me imóvel, sinto meu corpo congelando. Vejo a luz no horizonte, ela se aproxima, em direção aos lobos. “Afaste-se deles! Vá embora, não se apague!”, meus gritos não são ouvidos em meio a tantos outros. A luz se aproxima lentamente dos lobos. Os gritos diminuem. O silêncio volta tranqüilo. Os lobos a contemplam atentamente em silêncio. Ela para em frente à janela, me dirige palavras incompreensíveis, as palavras entram em mim, me aquecem. As paredes recuam. Durmo em paz.

Olharia pela janela e buscaria a luz, isso me aqueceria, pararia as paredes, curaria os cortes, afastaria os vermes e o cheiro ruim, eles desistiriam de subir em mim, de entrar em mim e eu não teria que matá-los, portanto, não me machucaria. Isso me curaria, o sangue não mais escorreria, meu grito sairia, o ar entraria por meus pulmões, não mais me sufocaria e em paz dormiria.

Por muitas e muitas vezes tentei entender: o que era a luz? De onde ela vinha? Porque não entendia o que dizia? Queria agradecê-la por me fazer dormir em paz, por não temer dormir e também por que, lentamente sinto-a brotando dentro de mim e, cada vez mais consigo enfrentar aquele velho casarão e espantar os lobos, os gritos e as paredes. A cada dia rezo por nosso reencontro sinto a necessidade de tocá-la, de senti-la, e mesmo que não consiga, ao menos, de ficar perto dela.

Por muito tempo eu busquei isso, ela sempre aparecia para me aliviar e me deixar dormir, até que um dia, estava naquele velho quarto, as paredes me espremiam, os gritos me insultavam, eu corri para a janela e a luz estava lá, olhando para mim, “Eu estou com você, eu acredito em você, você não está sozinha” a luz dizia-me, não em palavras, dizia em meu interior. Então a luz informe tomou forma, olhos, cabelo, a paisagem pálida e mofada foi tornando-se branca, conseguia ver um vaso de flor do outro lado do corredor. Estava de volta ao hospital e em minha frente uma figura familiar, vestida com um jaleco branco um pouco amarrotado. Seus olhos expressivos olhavam-me, em silêncio, enquanto firmemente segurava minha mão. – Você está bem agora. Não sei se o que ela disse foi uma pergunta ou uma afirmação, por isso não respondi, busquei rapidamente palavras, mas soltei um breve “Doutora”. Ela sorriu e me disse: - Já te falei que não sou doutora!

“...Através do véu da incerteza humana
Existe um mundo que não nos é permitido conhecer
Quando este véu se rompe
É onde minha mente se perde
Uma viagem sem retorno
Através do sentido daquilo que chamamos de vida”.

“... E eu me sento aqui, com essas palavras vazias, para dizer
Que posso sentir seu espírito pairar sobre mim
Sinto suas asas angelicais
Acalmando meus medos e raivas
Que lentamente se vão”.
(Thorsen, O.)*

Não sei qual é o sentido da vida, nem mesmo sei o que é a vida, mas, graças a algumas pessoas sinto, dentro de mim, que vale a pena lutar por ela.

“Não podemos mudar o passado. Podemos mudar o significado do passado hoje”.

“Arte é: dar voz ao silêncio primordial”.
Escrito em Abril de 2006

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